A conta que ninguém faz: por que 'leve 3, pague 2' convence mesmo quando o desconto é pequeno

Uma oferta de três por dois é duas coisas ao mesmo tempo: uma aritmética simples que quase ninguém faz no corredor do supermercado e um instrumento de precificação que separa clientes sem anunciar preços diferentes. O que acontece na cabeça de quem compra — e o que o vendedor está comprando com esse desconto.

Sip Dölyn Editorial25 de setembro de 202611 min de leitura
A conta que ninguém faz: por que 'leve 3, pague 2' convence mesmo quando o desconto é pequeno
Carol Pyles 2013

A oferta é clara: leve três, pague dois. A conta também deveria ser. Para quem já ia levar três unidades, é um desconto de um terço. Para quem ia levar duas, é um convite a gastar o mesmo dinheiro levando mais mercadoria — o que não é desconto nenhum sobre o que se pretendia gastar. Para quem ia levar uma, é uma proposta de triplicar a despesa em troca de um preço unitário menor num produto que talvez fique meses no armário.

O número anunciado, portanto, raramente é o número relevante. O desconto efetivo depende inteiramente de uma informação que a etiqueta não tem: quanto aquela pessoa compraria se a promoção não existisse. E ainda assim a oferta funciona — inclusive com quem ia levar uma. A pergunta interessante não é se as pessoas sabem fazer a divisão. É por que a divisão não é o que elas estão fazendo.

O prazer do negócio é contabilizado à parte

Uma explicação proposta para esse descompasso começa separando duas coisas que a teoria econômica padrão trata como uma só. De um lado está o benefício de ter o produto: o que ele vale para quem o usa, menos o que se abriu mão para obtê-lo. É o excedente do consumidor, e para um agente puramente racional a história acaba aí. De outro lado está o prazer — ou a irritação — de ter feito um bom ou mau negócio, avaliado não contra o valor de uso, mas contra o preço que a pessoa esperava pagar. Esse preço esperado é o que se chama de preço de referência. Quando o preço cobrado fica abaixo dele, há uma satisfação adicional, uma pechincha; quando fica acima, há a sensação de estar sendo roubado.

O ponto dessa distinção é que a segunda parcela existe mesmo quando o produto é idêntico. Uma pesquisa clássica com estudantes de MBA que bebiam cerveja regularmente ilustrou isso: pediu-se quanto pagariam por uma garrafa da marca favorita trazida por um amigo até a areia da praia. Em uma versão, a cerveja vinha de um hotel resort; na outra, de uma mercearia pequena e malcuidada. A cerveja é a mesma, o local de consumo é o mesmo, a pessoa nem entra no estabelecimento. Ainda assim, as respostas medianas, ajustadas pela inflação, foram de US$ 7,25 para a cerveja do resort e US$ 4,10 para a da mercearia.

A explicação proposta é a expectativa: espera-se que um resort cobre mais, em parte porque seus custos são obviamente maiores. Pagar sete dólares no hotel é chato mas previsível; pagar o mesmo no mercadinho é um ultraje. O que muda de um caso para outro não é o produto nem o benefício — é a comparação com um preço que a pessoa carrega na cabeça antes de chegar ao balcão.

Quem sente utilidade de transação está obtendo prazer (ou dor) dos termos do negócio em si.
Formulação da obra que introduziu o conceito

Uma consequência incômoda decorre disso, e a própria formulação a explicita: como essa parcela pode ser positiva ou negativa, ela tanto impede compras que valeriam a pena quanto induz compras que são desperdício. O caso que originou a ideia é doméstico e reconhecível: uma amiga do pesquisador foi comprar um edredom para cama de casal. Os preços normais eram de US$ 300 para o tamanho king, US$ 250 para o queen e US$ 200 para o de casal. Naquela semana, todos os tamanhos custavam US$ 150. Ela levou o king — grande demais para a cama, pendurando de todos os lados, mas irresistível como negócio.

Por que a unidade extra pesa mais que o centavo a menos

Se o mecanismo é a comparação com um preço de referência, a forma como o desconto é anunciado deixa de ser detalhe. Um desconto de um terço pode ser apresentado como preço unitário menor ou como uma unidade adicional sem custo. Financeiramente, para quem compra três, é a mesma coisa. Psicologicamente, há razões para suspeitar que não seja.

A base dessa suspeita é a forma como ganhos e perdas são avaliados. A função valor que a economia comportamental herdou da teoria do prospecto tem três propriedades: as pessoas experimentam a vida em termos de mudanças, sentem sensibilidade decrescente tanto a ganhos quanto a perdas, e perdas doem mais do que ganhos equivalentes agradam — grosseiramente, cerca do dobro. Sensibilidade decrescente significa que o segundo pedaço de um ganho vale menos que o primeiro. Um ganho dividido em três parcelas diluídas rende menos satisfação que o mesmo ganho apresentado inteiro.

A aplicação a 'leve 3, pague 2' é uma leitura possível, não um resultado medido: a unidade grátis é um ganho segregado, apresentado de uma vez, enquanto alguns centavos a menos em cada item são três ganhos minúsculos cada um perto da faixa em que quase não se sente nada. Vale registrar que o material disponível sustenta o mecanismo geral da função valor com solidez, mas não traz experimentos que comparem diretamente desconto em quantidade e desconto percentual nesse formato. A explicação é coerente com o que se sabe; não está demonstrada para este caso específico.

Há um segundo efeito, mais banal e provavelmente mais poderoso: a oferta em quantidade embaralha a comparação. Preço por quilo contra preço por pacote, três unidades contra a embalagem econômica do concorrente — a aritmética existe, mas exige tempo e atenção no corredor. E uma advertência geral da própria economia comportamental se aplica aqui: modelar o consumidor como alguém que faz todos os cálculos necessários, com autocontrole suficiente para executar o plano ótimo, é exatamente o tipo de premissa que psicólogos acham inverossímil. A pessoa diante da gôndola não está resolvendo um problema de otimização. Está decidindo rápido, com heurísticas.

Do outro lado da gôndola: um cardápio, não uma gentileza

Até aqui, a história é sobre quem compra. Mas o formato não é acidente: ele resolve um problema concreto de quem vende. Um vendedor com algum poder de mercado gostaria de cobrar caro de quem está disposto a pagar caro e barato de quem só compra com desconto. O obstáculo é que ele não sabe quem é quem — e não pode perguntar.

O desconto por quantidade contorna esse obstáculo sem exigir que ninguém revele nada. Ele é um cardápio: quem quer uma unidade paga o preço cheio; quem leva três paga menos por unidade. O comprador se classifica sozinho ao escolher. É a mesma lógica que aparece formalizada na literatura de desenho de contratos, em que o problema central do vendedor é induzir o comprador de alta valorização a revelar seu tipo — e em que a restrição que realmente morde é justamente essa. Cobrar preços diferentes de pessoas diferentes sem anunciar preços diferentes: o desconto por quantidade faz isso com uma etiqueta só.

A literatura sobre discriminação de preços também registra os limites disso. Os ganhos são pequenos a menos que existam diferenças consideráveis de elasticidade entre os grupos e que uma fatia relevante do produto seja vendida no segmento de preço mais alto. E a arbitragem corrói o esquema: quando o produto é facilmente revendido ou transferido entre compradores, quem acessa o preço baixo pode repassá-lo a quem pagaria mais. Num supermercado, a arbitragem entre vizinhos é limitada, mas a estocagem doméstica cumpre função parecida ao longo do tempo — quem levou três não volta na semana seguinte.

Por que promoção e não preço de tabela menor

Resta a pergunta mais estratégica: por que uma promoção temporária em vez de simplesmente baixar o preço de tabela? Há um argumento direto para isso na análise clássica da rivalidade entre concorrentes, e ele não é sobre o consumidor. Sustenta-se ali que a rivalidade se faz por movimentos que provocam reação, e que a concorrência por preço é a forma mais instável de todas: cortes de preço são rápida e facilmente igualados pelos rivais e, uma vez igualados, reduzem a receita de todas as empresas, a menos que a elasticidade-preço da demanda do setor seja alta o bastante. Batalhas de publicidade, ao contrário, poderiam expandir a demanda ou reforçar a diferenciação, em benefício de todos.

Uma promoção em formato de quantidade, com prazo e produto delimitados, fica num lugar intermediário: mexe no preço efetivo sem mexer no preço de tabela, e é mais fácil de desfazer do que uma redução permanente. Isso é uma leitura construída a partir do argumento sobre instabilidade da guerra de preços, não um achado sobre promoções desse tipo — a literatura de marketing que mediria diretamente o efeito não está entre as evidências disponíveis aqui. O que se pode dizer com segurança é que a distinção entre movimento reversível e movimento permanente é central na análise de como rivais reagem, e que a pergunta relevante para quem age é sempre a mesma: quão provável, quão rápida, quão eficaz e quão dura será a retaliação.

Há ainda a dimensão do tempo. Pelo arcabouço padrão de elasticidade da demanda, espera-se que o efeito de uma variação de preço não se esgote no período em que ela ocorre: o efeito imediato seria menor que o ajuste total, e a demanda seria relativamente mais elástica no longo prazo que no curto. Argumenta-se também que esse ajuste é mais rápido em alimentos, comprados semanalmente, do que em bens duráveis, comprados com pouca frequência. Se o raciocínio vale para uma promoção de supermercado, parte do resultado dela não seria conversão de clientes novos, e sim deslocamento no tempo de compras que aconteceriam de qualquer forma — o que é implicação do mecanismo geral, não medição.

O efeito colateral: destruir a régua que torna a oferta atraente

O mecanismo tem uma armadilha embutida para quem o usa. Se o prazer vem da distância entre o preço cobrado e o preço de referência, e se o preço de referência é aprendido pela experiência, promover sempre reeduca o comprador para baixo. A resposta do varejo a esse problema tem sido, com frequência, manipular a régua: anunciar um 'preço sugerido' largamente fictício, que funciona como referência enganosa. Uma explicação proposta para o padrão é que os produtos vendidos assim compartilham duas características: são comprados com pouca frequência e têm qualidade difícil de avaliar. A compra infrequente ajudaria porque o consumidor não percebe que a promoção é permanente.

O contrário também está documentado, e é instrutivo. Redes americanas tentaram desmamar seus clientes da promoção constante com estratégias de 'preço baixo todos os dias', e essas experiências em geral fracassaram. Uma delas reduziu o uso de cupons em 30% na primavera de 2007 em relação à anterior; as vendas despencaram e a rede rapidamente prometeu voltar à abundância de cupons. Outra aboliu os preços fictícios sugeridos, acabou com as promoções tradicionais e arredondou os preços terminados em noventa e nove centavos; alegou que o preço final pago era efetivamente o mesmo. As vendas e a ação despencaram quando as mudanças entraram em vigor em 2012, o executivo responsável foi demitido no ano seguinte, os cupons voltaram, e até 2014 as vendas não haviam se recuperado.

A leitura oferecida para o fracasso: pode até ser verdade que os consumidores não estavam pagando mais no novo regime, mas estavam perdendo muita utilidade de transação — inclusive o pequeno prazer de pagar 9,99 em vez de 10. Vale notar que grandes varejistas de desconto operam com preço baixo permanente e não eliminaram essa parcela; fizeram o oposto, convencendo o cliente de que a experiência inteira de compra é uma caçada a pechinchas.

Três perguntas que devolvem o desconto real

Nada disso significa que procurar boas ofertas seja irracional. Economizar numa compra torna outra possível. O risco é específico e delimitado: comprar algo que não será usado só porque o negócio era bom demais para deixar passar. Em algum lugar da garagem ou do sótão de muita gente há a versão pessoal daquele edredom king numa cama de casal.

  • Quantas unidades eu levaria se a promoção não existisse? O desconto real é sobre esse número, não sobre três.

  • Qual é o preço por unidade, e contra que preço estou comparando — o de tabela anunciado ou o que este produto costuma custar?

  • Se eu levar três, deixo de comprar nas próximas semanas, ou vou acabar comprando de novo antes de consumir tudo?

A inversão útil está aí. A pergunta que a embalagem da oferta responde é quanto eu economizo. A pergunta que importa é outra: quanto eu gastaria sem ela. E é exatamente essa segunda conta — a única que depende de saber o que se ia fazer antes de ver a etiqueta — que o formato do desconto foi desenhado para tornar difícil.

  • promoções
  • precificação
  • economia comportamental
  • varejo
  • discriminação de preços
  • comportamento do consumidor

Referências

  1. William G. Tomek, Harry M. Kaiser. Agricultural Product Prices. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2014
  2. Richard H. Thaler. Misbehaving: The Making of Behavioral Economics. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2004
  3. Michael E. Porter. COMPETITIVE STRATEGY Techniques for Analyzing Industries and Competitors. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 1998
  4. Paul R. Krugman, Maurice Obstfeld, Marc J. Melitz. International Economics: Theory and Policy. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2012
  5. Drew Fudenberg, Jean Tirole. Game theory. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 1993
  6. David Romer. ADVANCED MACROECONOMICS, Fifth Edition. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2019
  7. Robert C. Feenstra. Advanced International Trade: Theory and Evidence. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2003
  8. Daron Acemoglu. Introduction to Modern Economic Growth. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 2009
  9. CHARLES TILLY. Coercion, Capital, and European States, AD 990-1990. Base de Dados Editorial Sip Dölyn. 1990
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